
Relógio dos Privilégios expõe desigualdade salarial na Enfermagem por gênero e raça
Um estudo inédito realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com apoio do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), expôs as profundas desigualdades salariais que afetam a Enfermagem no Brasil.
A pesquisa, conhecida como Relógio dos Privilégios, analisou 9.423.711 registros e calculou quanto tempo cada grupo — considerando gênero e raça — precisaria trabalhar para alcançar o mesmo rendimento de 30 horas semanais de uma mulher negra.
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Resultados do estudo
Tomando como referência o ano de 2022:
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Homens brancos: 23h18 para atingir o rendimento equivalente
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Mulheres brancas: 24h40
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Homens negros: 27h44
Os dados evidenciam que mulheres negras são o grupo mais prejudicado em termos de remuneração, ficando em maior desvantagem salarial.
Inspiração e metodologia
Segundo o enfermeiro Ricardo Mattos (UERJ), a metodologia foi inspirada em uma entrevista com a escritora Conceição Evaristo, que questiona o tempo necessário para “chegar lá” e o significado desse “lá”. Essa abordagem permitiu traduzir as desigualdades salariais em diferenças concretas de tempo de trabalho.
O estudo faz parte da pesquisa Demografia e Mercado de Trabalho da Enfermagem, conduzida com apoio do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Os pesquisadores planejam ampliar a análise para nível municipal, considerando que composição racial e rendimentos médios variam de cidade para cidade.
Debate no 27º CBCENF
Os resultados serão apresentados na sessão “Interseccionalidade entre raça, gênero e condição social na Enfermagem”, no 27º Congresso Brasileiro dos Conselhos de Enfermagem, em Salvador.
Para os autores, evidenciar o óbvio é essencial para mobilizar a categoria e combater pactos silenciosos que perpetuam as desigualdades.
Piso Salarial e combate às iniquidades
Segundo dados do Perfil da Enfermagem no Brasil (Cofen/Fiocruz), 80% dos profissionais são mulheres e 53% se declaram pretos ou pardos. Para o presidente do Cofen, Manoel Neri, o racismo estrutural e as desigualdades de gênero estão diretamente ligados à desvalorização da profissão.
O Piso Salarial Nacional da Enfermagem é visto como uma conquista histórica e um instrumento importante para reduzir essas disparidades. Ricardo Mattos afirma que novas análises serão feitas para avaliar o impacto do piso sobre os rendimentos médios no período pós-implantação.



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